Opinião – Atentados em Paris

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Abrindo o bloco de Entrevistas do blog segue os comentários de um amigo de longa data que prefere não se identificar e que vive na França há pouco mais de 2 anos para estudar. A entrevista foi realizada hoje sobre os atentados ocorridos na última sexta-feira 13/11.
1. Como é a relação entre grupos étnicos de modo geral na França? E no caso de árabes e muçulmanos?

É difícil comparar diretamente a relação entre todos os grupos étnicos radicados na França, então eu vou basear a minha resposta em uma simplificação e na minha experiência, mas antes eu faço uma ressalva: o que se segue não é necessariamente verdade para todos.

Eu vou chamar de francês qualquer indivíduo que nasceu e descende de pais nascidos na França. Esta definição é mais restrita que o convencional, mas serve para diferenciar aqueles que nasceram na França de pais emigrados, ou aqueles que para cá migraram e são considerados cidadãos franceses devido às leis de afiliação de ex-colônias.

Em geral, o comportamento do francês no dia-a-dia não é surpreendente em nenhum aspecto, com uma exceção: o seu tratamento a qualquer estrangeiro. Como um estudante estrangeiro que não fala fluentemente a língua, o relacionamento com os franceses é mais complicado porque ou eles não falam uma segunda língua, ou mesmo quando dominam outra língua se recusam a utilizá-la, sob o argumento de que “se você vive na França você deve falar francês” (exatamente esta frase, por isso está entre aspas). Claro que se você se dispõe a ir morar em outro país, conhecimento da língua é fundamental, mas a diferença é que não há um esforço aparente do francês em tentar te compreender quando você esbarra nos seus limites de conhecimento da língua local. Esse tipo de comportamento gera situações embaraçosas em afazeres cotidianos, como comprar pão, por exemplo.

Mas existe um lado um pouco mais perverso deste tipo de comportamento. Grupos de estrangeiros tendem a se ajuntar e, mais grave, a se isolar, e isso é particularmente evidente no caso de árabes e muçulmanos. Isto se reflete na existência de bairros dominados por certos grupos, e um certo estado de tensão entre estas regiões e as demais. Além disso, devido a condições econômicas e legais, muitos jovens destes grupos étnicos encontram uma maior dificuldade de encontrarem empregos, o que potencializa ainda mais a exclusão: por exemplo, o diferencial de renda entre os dois grupos, franceses e não-franceses, aumenta.

2. Diante dos atentados ocorridos na última sexta-feira (13/11) em Paris, qual sua opinião? E qual é a postura dos franceses diante dos ataques?

Obviamente que a população francesa se sente comovida, mas nos últimos dias não houve nenhuma tensão ou violência entre os diferentes grupos étnicos na cidade onde eu vivo. Ainda também não observei um aumento do contingente policial ou militar nas ruas, apesar de saber que as fronteiras foram temporariamente fechadas e estão sob maior vigilância.

Até certo ponto, a expectativa é que o comportamento seja parecido com aquele observado após o ataque à edição do Charlie Hebdo mais cedo este ano. Houveram algumas passeatas e protestos, no sentindo de exprimir a ideia de que o povo francês não se curvaria diante de ataques e ameaças terroristas.

No entanto, uma indicação da perspectiva dos franceses sobre estes ataques será dada pelo próprio Charlie Hebdo. Eu digo isso pois na última semana a sua edição não se conteve em ridicularizar o atentado contra o avião russo derrubado sobre o Egito (e a morte de mais de 200 passageiros); resta saber se eles terão o mesmo comportamento quando o ataque atinge seus compatriotas.

Além disso, pouco destaque tem sido dado aos eventos em Israel e na Palestina, sem mencionar o bombardeio de Beirut.

3. Você acredita que a política externa adotada por Françoise Hollande foi responsável indiretamente pela sequência de ataques realizadas pelo Estado Islâmico? Por quê?

Não acredito que a política externa por ele adotada seja inteiramente culpada ou inocente. Existem diversos fatores que tornam a França um local suscetível para este tipo bizarro e deprimente de acontecimento. Primeiro, a posição geográfica da França, com diversas fronteiras abertas para os países vizinhos (a fronteira entre França e Espanha, perto de Barcelona, por exemplo, é um pedágio que raramente exibe policiais patrulhando e verificando os carros) e proximidade com territórios mulçumanos no norte da África. Segundo, o volume de grupos étnicos que já habitam solo francês e que podem ser relacionados a grupos extremistas islâmicos, e uma certa facilidade para este tipo de indivíduos para entrarem no país devido às leis migratórias locais. Terceiro, pouco investimento de recursos na melhoria dos seus serviços de inteligência, mesmo após o ataque à redação de Charlie Hebdo.

Este último ponto também pode ser associado a certa relutância do povo francês em se deixar ser vigiado pelo seu governo. Por exemplo, existem poucas câmeras de segurança espalhadas pela cidade, pouca circulação de policiais mesmo em regiões consideradas mais perigosas.

Talvez seguir o exemplo do Reino Unido, que intensificou o gasto com serviços de inteligência e por isso tem conseguido evitar a realização de ataques em território britânico, fosse o ideal, mas outras considerações podem ter pesado contra este tipo de conduta (obrigações de alocação de recursos através do orçamento anual, resistência política nas esferas governamentais ou até mesmo medo de rejeição por parte da população frente a outros gastos que esta julgava mais importantes).

4. Os franceses têm consciência das políticas externas adotadas pelo próprio país e que podem resultar em retaliações como as que aconteceram ontem?

Pode-se dizer que o francês médio possui uma consciência política mais exercitada do que a do brasileiro, mas é difícil fazer qualquer predição no sentido da pergunta. Primeiro, é quase impossível quantificar como certa política externa afeta a probabilidade de um ataque terrorista no seu país. Segundo, estimações em termos de vidas perdidas dado que um ataque possa acontecer também não são muito precisas. Assim, para um cidadão comum apoiar ou rejeitar a presença de tropas em regiões de conflito no exterior se baseia em alinhamentos ideológicos ou morais, mas raramente em um cálculo lógico das consequências.

Pode ser que no futuro próximo a população demande uma postura mais rígida do governo com relação a qualquer ameaça à segurança nacional, mas isto é só especulação da minha parte.

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Geografia do Espanto

França

Recentemente recebi uma solicitação para dar uma entrevista. A solicitante é uma estudante de jornalismo de uma universidade do Centro-Oeste brasileiro e estava em vias de concluir sua graduação. Entrou em contato comigo, por que sou geógrafa, ligada às humanas e com formação complementar em geopolítica (monitorei durante dois anos a disciplina de pós graduação do Prof. Dr. Wanderley Messias da Costa).
As perguntas eram sobre o Estado Islâmico e a influência da mídia de massa na formação de opinião acerca de árabes e muçulmanos que vivem no Brasil. De acordo com a entrevistadora, ela recebe constantemente informações de casos de xenofobia – aqui no Brasil – contra árabes e muçulmanos, com ações voltadas especificamente contra mulheres e crianças.
Durante a semana que se seguiu passei algum tempo rememorando as perguntas e respostas que dei aos questionamentos tentando chegar a alguma conclusão, pois de fato é um assunto muito complexo. Sem chegar a nenhuma conclusão que valesse a pena, ontem recebo a notícia dos 6 atentados orquestrados pelo Estado Islâmico em Paris.
Como um ser humano comum e com sentimentos, me senti abatida pela tragicidade e número de vítimas, porém minha formação teórica acadêmica me impede de enxergar atos como esse simplesmente pelo viés emocional. E há aproximadamente 24h venho refletindo acerca do que me foi noticiado.
Não posso deixar de fazer algumas constatações:
  1. Este atentado aconteceu em um momento muito oportuno para a mídia de massa (e aqui não deixo margem para teorias da conspiração), que realizou um trabalho muito do mal feito com relação às milhares de pessoas atingidas pelo desastre ambiental provocado pela Semarco. Já não havia mesmo uma cobertura midiática consistente sobre o evento que aconteceu há exatos 9 dias, ou seja, fica claro que é uma questão de prioridades e oportunidades.
  2. O conjunto de atentados de Paris mobilizou o mundo em favor de pouco menos de 200 mortos, enquanto que países como a França se recusam a oferecer abrigo a milhares refugiados sírios que tanto penam nas mãos do regime extremista colocado por Bashar Al Asad.
  3. Para ajudar ainda mais essa mistura de acontecimentos, há um Estado Islâmico controlado por extremistas religiosos que sequestram e mantém mulheres presas para serem vendidas como escravas sexuais. Histórias de meninas de 9 e 10 anos sendo estupradas por grupos de homens não vandalizam o mundo tanto quanto a morte de 200 pessoas. Será que é por que elas não explodem?
  4. Não posso deixar ainda de comentar a série de intervenções militares que tem ocorrido nos países do Oriente Médio nos últimos 20 anos – para não falar 30 – lideradas por países como EUA, Inglaterra e França. Ainda nesta chave, que fique bem claro os interesses desses países no Oriente Médio. EUA, França e Inglaterra são fornecedores de armamentos para Arábia Saudita e Catar (países líderes na produção do recurso natural não renovável que todos respiramos chamado petróleo) que as repassam para o Estado Islâmico. Por que? Por que são do mesmo grupo religioso, por que do interesse, por que gera lucro e por que há acordo. É de surpreender? Nem tanto. Isso já não é mais segredo para ninguém desde o filme Farenheit 9/11 dirigido por Michael Moore.
Agora, o que me assusta é a geografia do espanto mundial. Colônias – e aqui vou usar essa denominação sem reserva alguma, já que ainda somos governados por políticas eurocêtricas + EUA – como Brasil se escandalizam com ataques como esse, sendo que foi o próprio explorado há 1000 anos atrás. A Geopolítica nunca foi tão didática como em tempos de crise como esse.
Não defendo ataques terroristas, não tenho ligação com o islã, mas essa ironia circunda minha cabeça e vendo toda essa biopolítica que acontece por ai, faz falta os dias em que Michel Foucault – francês inclusive – ainda era vivo.

O que é Geografia?

A grande questão que não quer calar que os estudantes de Geografia da graduação se deparam ao ingressar no curso é: O que é Geografia?

Depois de um tempo estudando e ao me tornar professora de Ensino Fundamental II, todo o debate epistemológico acerca dessa questão se tornou de certa forma raso e desproporcional. Antes que os meus colegas geógrafos me ataquem, me explico:

O debate sobre “O que é Geografia” é diferente do “objeto” da Geografia. São complementares, mas diferentes. Isso quer dizer que quando entro em sala no 6° ano com o primeiro tema, tenho como principal objetivo fazer com que os alunos construam a ciência geográfica a partir de suas vivências, fazendo com que Geografia em linhas gerais seja pura e simplesmente a relação entre sociedade e natureza. Tudo o que cerca esses dois âmbitos pode ser considerado – na minha visão de professora – Geografia.

A variedade de objetos é que acaba sendo muitas vezes o X da questão. Pode ser ESPAÇO, pode ser TERRITÓRIO, pode ser LUGAR, entre outros.

Acontece que os intelectuais da área se perdem muitas vezes em discussões epistemológicas infinitas que não são carregadas de conteúdo aplicável à prática. Daí considero este um aspecto raso da discussão. Não desmereço meus ilustres professores em momento algum! Que fique claro que busco a aplicabilidade e facilidade do entendimento disso por mim e meus alunos.

Carrega-se de teoria e pensamento extremamente abstrato, algo simples e que por sua simplicidade acaba erroneamente sendo simplificado, especialmente no contexto de sala de aula.

Já a desproporcionalidade tem a ver com o conteúdo raso. Uma vez que estamos trabalhando com conceitos desenvolvidos por pensadores da mais alta qualidade geográfica, torna-se praticamente impossível levar uma discussão nesse naipe para a sala de aula com o “combo” interesse

Nós professores nos encontramos no meio do cabo de guerra entre a academia e a escola, tendo que simplificar conteúdos não-simplificáveis e tendo que fazer milagres com o currículo que nos é dado.

Aos meus colegas professores,

O que é Geografia para vocês?

Breve análise Cuba X EUA

Assistimos  desde o dia 17 de dezembro de 2014 a reaproximação diplomática entre Estados Unidos e Cuba. A importância de tal evento geopolítico demonstra o fim de relações de hostilidade que pautava os dois países até então. Geograficamente falando, e aqui não me refiro apenas à localização, Cuba se distanciou dos modelos Capitalistas desde 1960, tornando sua política fechada. Já EUA, como líder do bloco capitalista da Guerra Fria, tocou o barco da economia de mercado.

Pode-se dizer que esta aparente distância política e econômica entre os países acabou sendo pano de fundo para a realização de diversas missões de espionagem de ambos os países, a fim de identificar o que cada um deles planejava. Sendo assim, este foi o estopim da reaproximação, a libertação do espião norte-americano Alan Gross em Cuba e de dois espiões cubanos na Flórida (EUA).

Dentro desse conjunto de boas intenções de libertação e reaproximação, fica pra mim um questionamento: Quais os interesses norte-americanos e cubanos por detrás disso?

No dia 06/05/15 os jornais do mundo noticiaram algo inédito. A reinauguração do sistema de balsas ligando os dois países, que agora tira Cuba do papel de país isolado.

Considero especialmente interessante o post do Havana Ferry Partners – o serviço de balsas que vai da Flórida à capital cubana – se referindo à liberação das viagens turísticas e ao presidente norte-americano Barack Obama:

“This is a historical event. Thanks to President Barack Obama, to whom we are very grateful, for his leadership.” (“Este é um evento histórico. Graças ao presidente Barack Obama, a quem somos muito gratos, por sua liderança.”)

Esta declaração soa aos arautos das políticas estadunidenses mais uma das atitudes heroicas de proteção da paz mundial e da liberdade de todos os povos. Como geógrafa, observo esta atitude com reservas, que podem representar diversas sutilezas.

Estamos diante de interessantes capítulos históricos que estão por vir.

Em breve gravarei vídeo sobre a Revolução Cubana e o cenário geopolítico da Guerra Fria pra vocês.

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De onde eu falo

Olá…

Antes de tudo, passei esse mês de abril depois do primeiro post pensando o que eu escreveria nos próximos posts do blog. E duas provocações fizeram com que isto culminasse justo hoje. A primeira aconteceu durante o curso de extensão que participo na UFSCar de Sorocaba sobre Educação Inclusiva mediada pela Prof. Dra. Katia Caiado. No último encontro fomos questionadas a respeito do “lugar que ocupamos” pela professora Adriana Padilha que referenciou Paulo Freire ao iniciar sua explanação sobre o lugar de onde ela falava.

A segunda provocação aconteceu hoje feita pela minha colega de apartamento, a Karen que criou um blog e tem um dom incrível de escrever e por isso decidi seguir um pouco seus passos e continuar escrevendo. Por isso, gravei um pequeno vídeo contando sobre o lugar de onde eu vim e querendo saber mais sobre vocês.

Espero que gostem.

Até a próxima!

“Criança Geopolítica Assistindo ao Nascimento do Novo Homem”

E este é o título da obra de arte que escolhi para dar o toque inicial para este blog.

Por que esta imagem?

Dali

Bom, em primeiro lugar, esta é uma obra de arte que foi pintada por Salvador Dalí. Espanhol que viveu entre 1904 e 1989 e viu MUITA coisa acontecer histórica e geograficamente falando. É uma obra feita durante o Surrealismo, movimento que teve bases no desenvolvimento da psicanálise de Freud. Tá e o que isso significa? Na década de 1920 o mundo e especialmente a Europa estavam passando por uma nova fase em que todas as estruturas sociais, econômicas e políticas da época estavam se transformando a passos largos.

Um fato histórico a ser relacionado diretamente com o Surrealismo é justamente a Primeira Guerra Mundial, que recriou as estruturas diplomáticas e reconstruiu o cenário político pré Segunda Guerra.

E é justamente nessa transição que esta obra foi pintada. Cheia de elementos ricos para a compreensão do mundo da época, esta é uma obra que fala por si só, mas que tem em seu nome uma boa legenda: “Criança Geopolítica Assistindo ao Nascimento do Novo Homem”.

O mundo em 1943 – data da pintura – é representado como triste e sem esperança. A Geopolítica representada por uma criança assustada e que se esconde desse novo homem, que sai de dentro de um mundo mole e sensível, aparentemente prestes a ser derretido.

Quem é este novo homem? Este “filhote” do mundo pós Primeira Guerra tenta desesperadamente sair de dentro do mundo, que sangra pelas atrocidades que ocorreram nos anos anteriores.

Ao fundo é possível observar uma paisagem melancólica e poluída em que pessoas fogem desse “novo homem”. A mulher representada à direita pode ser entendida como Eva, que mordeu a maçã e criou o pecado original, mostrado aqui pela violência com que esse homem quer sair de dentro do mundo, como uma criação ainda mais agressiva que aquela que existia. Não é a toa que assiste-se apenas 2 anos depois dessa obra a ascensão de regimes totalitários e a Segunda Guerra Mundial.

Mas o que é a tão falada Geopolítica?

Em Geografia há uma distinção importante entre Geografia Política e Geopolítica.  Enquanto que a primeira se refere a todas as análises políticas de um espaço geográfico – seja disputa de territórios, regionalizações ou teorias de poder -, a segunda se ocupa apenas das relações de poder descritas no território. Estas relações de poder podem ocorrer de modo diplomático ou seguindo estratégias de guerra.

Este foi o post introdutório para a temática desse blog. No próximo pretendo aprofundar as ideias acerca da Geografia Política e da Geopolítica.

Até a próxima.