Geografia do Espanto

França

Recentemente recebi uma solicitação para dar uma entrevista. A solicitante é uma estudante de jornalismo de uma universidade do Centro-Oeste brasileiro e estava em vias de concluir sua graduação. Entrou em contato comigo, por que sou geógrafa, ligada às humanas e com formação complementar em geopolítica (monitorei durante dois anos a disciplina de pós graduação do Prof. Dr. Wanderley Messias da Costa).
As perguntas eram sobre o Estado Islâmico e a influência da mídia de massa na formação de opinião acerca de árabes e muçulmanos que vivem no Brasil. De acordo com a entrevistadora, ela recebe constantemente informações de casos de xenofobia – aqui no Brasil – contra árabes e muçulmanos, com ações voltadas especificamente contra mulheres e crianças.
Durante a semana que se seguiu passei algum tempo rememorando as perguntas e respostas que dei aos questionamentos tentando chegar a alguma conclusão, pois de fato é um assunto muito complexo. Sem chegar a nenhuma conclusão que valesse a pena, ontem recebo a notícia dos 6 atentados orquestrados pelo Estado Islâmico em Paris.
Como um ser humano comum e com sentimentos, me senti abatida pela tragicidade e número de vítimas, porém minha formação teórica acadêmica me impede de enxergar atos como esse simplesmente pelo viés emocional. E há aproximadamente 24h venho refletindo acerca do que me foi noticiado.
Não posso deixar de fazer algumas constatações:
  1. Este atentado aconteceu em um momento muito oportuno para a mídia de massa (e aqui não deixo margem para teorias da conspiração), que realizou um trabalho muito do mal feito com relação às milhares de pessoas atingidas pelo desastre ambiental provocado pela Semarco. Já não havia mesmo uma cobertura midiática consistente sobre o evento que aconteceu há exatos 9 dias, ou seja, fica claro que é uma questão de prioridades e oportunidades.
  2. O conjunto de atentados de Paris mobilizou o mundo em favor de pouco menos de 200 mortos, enquanto que países como a França se recusam a oferecer abrigo a milhares refugiados sírios que tanto penam nas mãos do regime extremista colocado por Bashar Al Asad.
  3. Para ajudar ainda mais essa mistura de acontecimentos, há um Estado Islâmico controlado por extremistas religiosos que sequestram e mantém mulheres presas para serem vendidas como escravas sexuais. Histórias de meninas de 9 e 10 anos sendo estupradas por grupos de homens não vandalizam o mundo tanto quanto a morte de 200 pessoas. Será que é por que elas não explodem?
  4. Não posso deixar ainda de comentar a série de intervenções militares que tem ocorrido nos países do Oriente Médio nos últimos 20 anos – para não falar 30 – lideradas por países como EUA, Inglaterra e França. Ainda nesta chave, que fique bem claro os interesses desses países no Oriente Médio. EUA, França e Inglaterra são fornecedores de armamentos para Arábia Saudita e Catar (países líderes na produção do recurso natural não renovável que todos respiramos chamado petróleo) que as repassam para o Estado Islâmico. Por que? Por que são do mesmo grupo religioso, por que do interesse, por que gera lucro e por que há acordo. É de surpreender? Nem tanto. Isso já não é mais segredo para ninguém desde o filme Farenheit 9/11 dirigido por Michael Moore.
Agora, o que me assusta é a geografia do espanto mundial. Colônias – e aqui vou usar essa denominação sem reserva alguma, já que ainda somos governados por políticas eurocêtricas + EUA – como Brasil se escandalizam com ataques como esse, sendo que foi o próprio explorado há 1000 anos atrás. A Geopolítica nunca foi tão didática como em tempos de crise como esse.
Não defendo ataques terroristas, não tenho ligação com o islã, mas essa ironia circunda minha cabeça e vendo toda essa biopolítica que acontece por ai, faz falta os dias em que Michel Foucault – francês inclusive – ainda era vivo.
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